terça-feira, 23 de abril de 2013

A inacreditável condenação da paquistanesa Asia Bibi


Logo que cheguei à Alagoinhas (BA), tive a honra de conhecer Dom Paulo Romeu, Bispo da Diocese local e um verdadeiro poço perene de cultura e sabedoria. Já na primeira visita, ele me falou da paquistanesa Asia Bibi, prisioneira desde 2010 e condenada à morte pelo regime do seu país

Para melhor entender o calvário desta cidadã, Dom Paulo trouxe-me o livro “Blasfémia”, escrito por Asia de dentro da prisão e publicado em 2011. A versão a que tive acesso foi editada em Portugal e, para mim, foi deveras gratificante manter contato com um livro narrado na nossa língua, mas na versão falada na sua origem. É inimaginável para nós do mundo ocidental, que tamanha injustiça ainda seja cometida em nome do fanatismo religioso. Não fosse um caso conhecido mundialmente, a narrativa de Bibi passaria por ficção e não uma dura e desumana realidade.


Asia Bibi, mãe de cinco filhos, é uma mulher católica em um país no qual os muçulmanos fundamentalistas conseguem impor a Sharia, a lei islâmica que contempla uma severa imposição contra a blasfêmia punindo até com penalidade máxima, insultos ou afirmações contra o Islã ou Maomé, vigente em diversas partes do país.

Em 2009, umas camponesas com as quais trabalhava nas tarefas agrícolas do povoado de Punjab, acusaram ante o Imã (clérigo muçulmano) local Asia Bibi de ter poluído a água ao tocar o recipiente no qual bebiam todas com suas mãos "impuras" por ser cristã. Esta denúncia levou à prisão de Bibi, julgada por blasfemar contra o profeta Maomé.

Em 8 de novembro de 2010, Asia Bibi foi condenada a morrer na forca, mas sua execução se encontra pendente depois de um recurso interposto ante um tribunal superior. As autoridades da prisão em que se encontra, a encarceraram em um módulo de isolamento, vigiada dia e noite por câmaras, por temor que seja assassinada na sua cela, pois extremistas muçulmanos ofereceram uma recompensa por seu assassinato. Em 17 de novembro de 2010, o Papa Bento XVI expressou sua proximidade espiritual a Asia Bibi e a seus familiares, pedindo que se restitua o quanto antes a sua plena liberdade.

O ministro federal para as minorias religiosas no Paquistão Shahbaz Bhatti, o único católico no governo, foi assassinado em março de 2011, em uma emboscada ao veículo oficial em que transitava. Bhatti foi premiado postumamente nos prêmios HazteOír de 2011, e seu irmão, Paul Bhatti, quem ocupa atualmente a mesma pasta no Governo, viajou a Espanha para receber o prêmio dado ao seu irmão.

Em janeiro de 2011, o governador de Punjab, Salman Taseer, também foi assassinado por um membro de sua escolta, logo depois de ter pedido publicamente a liberdade de Asia Bibi. Para se ter uma ideia da ira contra os católicos, o assassino de Taseer passou a ser considerado herói nacional entre os muçulmanos.

HazteOír assegurou que reativou sua campanha de pressão ao governo do Paquistão para conseguir que a Asia Bibi seja libertada. Em 2010, a plataforma espanhola recolheu mais de 60 mil assinaturas que foram entregues a seu presidente, Asif Zardari, através da Embaixada do Paquistão na Espanha. Pela ocasião do Prêmio HazteOír, a plataforma espanhola porá em marcha uma nova campanha pela liberdade de Asia Bibi, e seu marido Ashiq Masih, que receberá o prêmio em seu nome, em Madrid, poderá reunir-se com parlamentares, líderes de ONGs e autoridades da Igreja na Espanha.

No dia 15 de dezembro de 2012, a plataforma cidadã espanhola HazteOír, dedicada à defesa dos direitos humanos, ofereceu um prêmio à católica Asia Noreen Bibi, ícone mundial da liberdade de consciência, que permanece prisioneira no Paquistão com uma sentença de morte por uma acusação de blasfêmia contra o Islã, acusação da qual ela sempre se declarou inocente. O marido de Asia Bibi, Ashiq Masih viajará à Espanha para receber o prêmio em seu nome, pois ela permanece isolada na Prisão de Sheikhupura.
Como o contato com a condenada é mínimo, - apenas o seu advogado e o marido a visitam, - pouco se sabe sobre a sua real situação. As últimas notícias dão conta de que o seu estado de saúde inspira cuidados por ter contraído varicela, entre outras enfermidades. A solitária onde está confinada não tem as mínimas condições de higiene e ela há meses não recebe sequer lençóis ou cobertores para forrar a sua tosca cama de cordas. Como está em uma solitária, foi proibida de sair da cela e, dessa forma, está há quase um ano ser ver a luz do dia. Como agravante, por medo de envenenamento, ela é obrigada a fazer sua própria comida no mesmo ambiente onde convive com a umidade, o frio, os insetos e seu próprios excrementos. 

Parece surreal, mas por questões religiosas, estão submetendo um ser humano a este tipo de provação e, apesar dos apelos advindos dos quatro cantos do planeta, nada parece demover os muçulmanos do firme propósito de executar Asia Bibi.


Euriques Carneiro

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