quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Mulher de Roxo: afinal, quem foi essa personagem do cotidiano de Salvador?




Na segunda metade do século passado, durante muitos anos, uma figura absolutamente incomum, frequentou o centro de Salvador, tendo como ponto preferido as imediações da loja Mesbla, maior magazine da capital, à época

Várias são as versões sobre a vida desta mulher que perambulou por longos anos nas ruas de Salvador, especialmente no Pelourinho e Rua Chile, na segunda metade do século passado. Vestindo invariavelmente a cor roxa, com roupas semelhantes aos hábitos das freiras, descalça e com forte maquiagem no rosto, ela circulava pedindo dinheiro, sempre muito bem educada. Diziam que ela era de uma família rica, bem nascida e teria enlouquecido em virtude de uma enorme decepção amorosa. Sua misteriosa história, de abandono e solidão, se tornou uma lenda entre os soteropolitanos.
Quem teve a oportunidade de conhecê-la de perto, atesta a fina educação e os hábitos refinados da Mulher de Roxo. Sempre serena, sem jamais levantar a voz, fazia a sua “via crucis” na Rua Chile, mas sem jamais incomodar ou importunar ninguém. Pedia esmolas e, quando dispunha de dinheiro, fazia as suas refeições nos restaurantes mais modestos do centro de Salvador, mas sem perder a classe e a educação que ostentava no dia a dia.
Em junho de 2012, A Mulher de Roxo serviu de mote para uma peça teatral com foco nessa personagem à procura de um sentido para uma vida marcada pela repressão familiar, na figura de um pai autoritário e moralista. Após varias tentativas para ser livre, ela busca na fantasia seu lugar no mundo. A Mulher de Roxo reuniu em sua estrutura poesia, música, artes visuais e dança. A poesia do texto faz uma referencia ao “Cântico dos Cânticos”, de Salomão.
Divagando e criando a partir da história narrada em vários depoimentos o espetáculo, levou Doralice, a mulher de roxo, a se inserir num universo onde o sagrado e o profano se misturam e permeiam toda sua história. Um clima barroco envolve a personagem que sempre está dividida entre o prazer e a religiosidade que lhe é imposta pela família.
Saindo do teatro, o espectador é levado a comparar a Doralice do espetáculo com a misteriosa personagem que ainda hoje é alvo de discussões sobre a origem, a trajetória e os motivos pelos quais ela se transformou na Mulher de Roxo.

Euriques Carneiro

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