terça-feira, 25 de setembro de 2012

Atestado de óbito de Vladimir Herzog dirá que ele morreu por maus-tratos




Quem acompanhou os anos da ditadura até o final dos dias do malfadado General João Figueredo, cansou-se de ler a versão oficial que Vladimir Herzog teria cometido suicídio, enforcando-se na cela onde encontrava-se preso
A verdade viria à tona quase quatro décadas depois, a partir da sentença do juiz Márcio Martins Bonilha Filho, da 2ª Vara de Registros Públicos do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). O magistrado determinou na noite de segunda-feira (24) a retificação do atestado de óbito do jornalista Vladimir Herzog, que morreu em 1975 na capital paulista. O atestado, emitido no período da ditadura, indicava que sua morte foi consequência de suicídio. Porém, por ordem da Justiça o atestado de óbito informará que a morte dele foi causada por maus-tratos.
Por determinação do juiz, a partir de agora, passará a constar no documento a seguinte informação: “A morte [de Herzog] decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do 2º Exército – SP (DOI-Codi)”. O DOI-Codi era a sigla conhecida do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna subordinado ao Exército, que atuava como órgão de inteligência e repressão do governo.
A retificação se deu a partir de um pedido da Comissão Nacional da Verdade, representada pelo coordenador, ministro Gilson Dipp. A solicitação foi encaminhada a pedido da viúva Clarice Herzog. Na decisão, o juiz Bonillha Filho elogiou a atuação da comissão.
A comissão conta com respaldo legal para exercer diversos poderes administrativos e praticar atos compatíveis com suas atribuições legais, entre as quais recomendações de ‘adoção de medidas destinadas à efetiva reconciliação nacional, promovendo a reconstrução da história’”, disse o magistrado na sua decisão.
Croata de nascimento, Vlado Herzog passou a assinar Vladimir por considerar seu nome exótico. Naturalizou-se brasileiro e se tornou um dos destaques do movimento pela restauração da democracia no Brasil, depois do golpe militar de 1964. Sem esconder as suas convicções políticas, era militante do Partido Comunista e sofreu torturas em São Paulo.
Vladimir foi encontrado morto, na cela onde estava preso, no dia 25 de outubro. Segundo informações fornecidas na época, o jornalista foi localizado enforcado com o cinto que usava. Porém, a família e os amigos jamais aceitaram essa versão sobre a morte dele. Nas fotos divulgadas, o jornalista estava com as pernas dobradas e no pescoço havia duas marcas de enforcamento, indicando estrangulamento. Ademais, as barras da janela onde teria havido o suicídio, eram tão baixas que o jornalista teria que ter ficado de joelhos para conseguir atentar contra a sua própria vida. No período da ditadura, eram comuns as versões de morte associadas a suicídio, todas elas contestadas, mas a de Vlado é a primeira onde conseguiu-se mudar a versão oficial.

Euriques Carneiro

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