sexta-feira, 28 de setembro de 2012

47 anos depois, Fernanda Montenegro revive Zulmira, em filme de Eduardo Ades




Aos 82 anos e na plenitude da sua capacidade interpretativa, Fernanda Montenegro recria a personagem que interpretou em 1965, no filme 'A Dama do Estácio'


Do alto dos sessenta anos de carreira, todas as mais altas glórias alcançadas, o nome de Fernanda Montenegro já não pode ser dissociado da imagem de diva-mor da dramaturgia brasileira, com passagens impagáveis no teatro, cinema e televisão, senhora respeitável, "grande dama".

Topetudo, o diretor de cinema estreante Eduardo Ades, não teve constrangimento na hora de convidar a atriz de 82 anos para fazer uma prostituta decadente, que anda decotada, fala palavrão e faz ponto na rua, apesar do avançado dos anos. Quando Ades lhe mostrou o roteiro, em 2010 - quando ele tinha apenas 28 anos -, Fernanda não demorou a aceitar o papel. Como a atriz estava atuando na novela Passione, da TV Globo, solicitou apenas o tempo necessário para terminar de gravar o folhetim.

Foi também o período que o diretor, com experiência apenas em curtas, produção e curadoria de mostras de cinema e em publicidade, precisava para captar os R$ 80 mil necessários à filmagem, completando o orçamento com R$ 20 mil de recursos próprios. 
A protagonista de A Dama do Estácio, o curta de Ades, que passou pelo Festival de Cinema de Huesca, na Espanha, em junho, e a mostra de curtas de São Paulo, em agosto, e será exibido hoje no Festival de Cinema do Rio, não é uma personagem qualquer. É uma homenagem à primeira incursão cinematográfica dela: A Falecida, de Leon Hirszman.

No filme de 1965, Fernanda é a Zulmira de Nelson Rodrigues, uma mulher obcecada com a própria morte, que ambiciona um enterro de luxo que a redima da vida miserável de subúrbio. Tuberculosa, acaba morrendo. 
 

Ela agora volta a Zulmira, desta vez uma prostituta que chora porque não tem dinheiro para comprar o caixão em que gostaria de ser enterrada. Cortejada por um antigo amor, dono de uma funerária, ela diz que só se casará com ele caso o caixão escolhido, pomposo, lhe seja dado de presente. Quer tê-lo por perto, dentro de casa. Ele resiste a ceder à excentricidade, mas sucumbe, e Zulmira se casa de noiva e tudo.

Os 22 minutos do filme acabam com a velha prostituta na caçamba de uma kombi pelas ruas do Estácio, bairro tradicional e decadente da área central do Rio. Véu na cabeça, celebra com o amigo travesti, o caixão ao lado, ao som de O X do Problema.

Ratificando a sua condição de estrela, sem qualquer “estrelismo”, Fernanda dedicou cinco dias às gravações, entre o fim de Passione e viagens com o monólogo Viver Sem Tempos Mortos, e contribuiu com ideias cênicas. Deu palpites no figurino e no roteiro - "nesta vida eu aprendi um pouquinho de dramaturgia", brincou. "Foi uma parceria enorme, Fernanda estava inteira. No último dia, a equipe estava apaixonada", lembra Ades. "É claro que intimida, mas ela está ali tão naturalmente que desarma isso."

Referência: estadao


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