quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Neste 02 de agosto, o Nordeste rende homenagens pelos 23 anos de morte de Luiz Gonzaga



02.08.1989 / 02.08.2012 Há 23 anos o Brasil perdia o maior nome da musica nordestina, o Rei do Baião, Luiz Gonzaga foi convocado pelo Grande Arquiteto do Universo para compor a seleção celestial, ao lado do seu pai Januário, Jackson do Pandeiro e outros mestres que para lá já se mudaram

Luiz Gonzaga gabava-se de conhecer quase todas as cidades do território brasileiro, e ter tocado na maioria delas. Até 1972, no entanto, uma pequena área do país continuava refratária ao Rei do Baião. A Zona Sul carioca. Embora morasse na cidade desde 1940, ele continuava um cidadão e um artista da Zona Norte. Na época da parceria com Humberto Teixeira isto era ainda mais evidente. Enquanto Gonzagão morava no Méier, na suburbana Zona Norte, Teixeira, qualidade de advogado influente, desfrutava todo glamour da Zona Sul, cliente vip de restaurantes badalados como o Vilarino (onde Tom Jobim foi apresentado a Vinicius de Moraes pelo jornalista Lúcio Rangel).
Em 1972, Luiz Gonzaga estreou em um teatro da Zona Sul carioca, o Tereza Rachel, em, Copacabana, com o espetáculo Luiz Gonzaga volta para curtir, produzido pelo jornalista e compositor baiano José Carlos Capinam. No Rio desde o final dos anos 30, quando largou a farda, apesar do imenso sucesso que desfrutou nos Anos 40 e 50 Gonzaga continuava um artista da Zona Norte, supostamente conservadora, e preferida pelos imigrantes nordestinos. A temporada no pequeno Teatro Tereza Rachel não só lhe rendeu prestígio, como uma abertura para um mundo totalmente novo para ele: o dos intelectuais e universitários da área mais sofisticada do país. Nem parecia o Velho Lua que alertava a turma do iê-iê-iê que cabra do cabelo grande e cinturinha de pilão não tinham vez no universo dele, de Lampião e de Padre Cícero (Xote dos Cabeludos).

Nesta data, quando o Nordeste relembra com tristeza a passagem dos 23 anos da morte de Gonzagão, tentamos jogar uma luz em um período geralmente negligenciado pelos que escrevem sobre o Rei do Baião. Nesta época pouco estudada, ele  conquistou uma plateia que lhe era indiferente, sobretudo os universitários. No ano seguinte ao show do Teresa Raquel, ele inaugurou com o Quinteto Violado o Circuito Universitário, levando a música do campo ao campus. Para seguir a direção que lhe apontava o produtor Capinam, o cismado Luiz Gonzaga teve que se despir de preconceitos. Entre estes, o que alimentava contra guitarras. No Volta pra curtir sua banda contava com a instrumentação tradicional do forró – zabumba, triângulo, e sanfona – mas também com contrabaixo de pau, e a guitarra elétrica do piauiense Renato Piau, que veio para o Rio trazido por Torquato Neto, e atualmente toca na banda de Luis Melodia.

“Ele foi muito cordato, aceitou a banda e a direção musical sem problemas. Ele era muito profissional. O que é fantástico porque foi o inventor de uma acústica na música brasileira, com o instrumental sanfona, triângulo, zabumba, uma acústica enxuta, minimalista. No repertório ficaram as músicas mais emblemáticas. “Realmente, este show mudou a visão que aquele público tinha dele, e também fez Luiz Gonzaga ficar mais aberto às novidades”, comenta Capinam. Paradoxalmente, foi um tempo de vacas magras, em que ele, cuja principal fonte de renda era as apresentações ao vivo, viajou pelo país, com sua banda, tocando onde desse, cantando em cinemas, picadeiros de circos mambembes, às vezes chegando às cidades sozinho, com a sanfona a tiracolo. Dividia-se entre o Rio, Recife, e sua cidade natal Exu, aonde chegou a criar e bancar os instrumentos de um conjunto de rock, o LG Som, provavelmente pensando em se dedicar a empresariar artistas.

Trataremos pois, desta fase do Rei do Baião de volta ao sertão, e de sua entrada no mundo dos intelectuais, universitário e dos hippies, quando participou de festivais de rock, e fez pontas no cinema udigrudi nacional. Anos de extremos na vida de Luiz Gonzaga, que terminariam com a reconciliação completa com o filho adotivo Luiz Gonzaga Jr, e o reencontro com o sucesso nacional, no final da década de 70. Ninguém conhece melhor o artista do que os músicos de sua banda. São eles que vivem o dia a dia, enfrentam os bons e maus humores do artista, como Pedrinho Franco, exuense que tocou por oito anos com Lua, Joquinha Gonzaga, sobrinho, motorista e músico, que trabalhou intensos 15 anos com o tio famoso. O irmão dele, Piloto, talvez a pessoa mais próxima a Gonzagão nessa época. Ou ainda Neguinho, Islandio, Edinaldo Queiroz, Mauro, que tocaram com ele pelo Nordeste nos anos 70 e 80, e nunca são lembrados nas datas redondas em que se prestam homenagens a Luiz Gonzaga em sua cidade natal. Até estranharam quando foram procurado para falar desta relação com o Velho Lua.

Mais do que somente historias das andanças do Rei do Baião, o que se revela na conversa com estes músicos é um Luiz Gonzaga complexo, de mudanças bruscas de temperamento (o que aponta para uma personalidade bipolar), centralizador, sempre, autoritário quase sempre,  mas que em certos momentos podia ser inesperadamente humilde e gentil. Os valetes revelam o ser humano por trás do Rei. Pedrinho Franco tocou durante oito anos seguidos com Luiz Gonzaga. Foi zabumbeiro e percussionista. Ele foi baterista do LG Som, um conjunto de baile criado por Gonzagão, que bancou os instrumentos e foi seu (suposto) empresário, porque nunca ganhou nada com a banda: “A gente ensaiava onde é hoje o Parque Aza Branca. Deste grupo só tem vivos eu e Edinaldo Queiroz, que mora nos Estados Unidos. Ele formou o LG, mas nós nunca tocamos com seu Luiz. O repertório era de iê-iê-iê, os sucessos da época. Seu Luiz sabia disto, mas uma vez ele chegou num ensaio, e Edinaldo tocava uma música dos Beatles. Seu Luiz não gostou. Disse que não formou o conjunto para tocar música de fresco”, conta Pedrinho, hoje funcionário do fórum da cidade.

Estes rompantes de Luiz Gonzaga eram tão comuns que os que conviviam com ele se adaptavam facilmente. Sobretudo os músicos que passavam mais tempo com Lua do que os próprios familiares. Havia uma espécie de acordo implícito entre eles, conforme revela Pedrinho: “Por exemplo, se seu Luiz acordasse e não desse bom dia, isto significava que não se devia dar bom dia a ele. No começo eu dei, e ele me respondeu com um ‘E eu pedi lá bom daí de fio da égua nenhum?’. Era muito rígido nos compromissos, e horários. Marcou uma hora, pronto. Uma vez em Caratinga (MG), ele avisou que a gente sairia às oito da manhã. Cheguei à recepção as oito e cinco, e ele já havia ido embora. Mas deixou o dinheiro da passagem, e disse aonde iria me esperar”.
Assim como podia ficar mal-humorado de um momento para outro, Luiz Gonzaga era espirituoso e piadista. Nesta época, no Rio, ele tocava com a formação clássica, com o trianguero Xaxado, um anão, e o zabumbeiro Azulão, um negro muito alto. Costumava apresentar os dois como “Salário Mínimo” e “Custo de Vida”. Em outro episódio que conseguimos garimpar, ele estava na Fazenda Rancho Alegre, em Entre Rios (BA), - hoje Fazenda Lindolfo Mendes Barbosa (Lindú), - e sem qualquer motivo aparente, zangou-se e recolheu-se a seu quarto afirmando que não faria o show daquela noite. Foram escaladas a esposa de Manoelito Argolo e a de um outro amigo para demovê-lo da ideia. Foram necessários muitos argumentos e quase uma hora de conversa para que o emburrado Gonzaga subisse ao palco com a maestria de sempre.

EM PARIS - De todos os que trabalharam com Luiz Gonzaga, Piloto foi o único que não aguentava em silêncio os arroubos de mau humor do tio: “A gente brigava muito. Eu era perguntador e ele respondão. Com tio Gonzaga não tinha “por favor”; Era: leve isto no Recife, dava o roteiro, de ida e volta. Eu sempre tinha uma resposta na ponta da língua. Quando ia gravar um dos últimos discos, eu quis viajar logo para o Rio com ele, que me pediu que ficasse em Exu, quando precisasse, mandava a passagem e eu iria. Avisei que fizesse isto com antecedência, porque não ia às pressas. E foi o que aconteceu. João Silva me ligou dizendo para eu pegar o ônibus que a gravação ia começar tal dia. Estava muito em cima, respondi eu não iria. E não fui”. Quem diz isto é Fausto Muniz Maciel, filho de Muniz, uma das irmãs de Gonzagão.

Motorista e zabumbeiro, Piloto foi também empresário de Luiz Gonzaga. Ele afirma que durante os anos que conviveu com Gonzagão, testemunhou “coisas incríveis”; “Ele foi mal assessorado quase a carreira toda. Os amigos se aproveitavam. Ele não tinha visão de dinheiro. Às vezes fazia show em clube lotado, e o empresário dizia que deu prejuízo. Quando Gonzaguinha assumiu a carreira dele, tio Gonzaga teve sua fase de profissional. Passou a receber cachê adiantado. Mas até aí ele não podia, por exemplo, ver um circo. Parava e fazia o show dividindo a renda com o dono, às vezes dava toda renda a ele, quando o circo estava com muita dificuldade. Uma vez cismou de comprar uma Kombi a álcool, ninguém conseguiu convencer ele sobre as desvantagens, da instabilidade, nada. Quando ele queria, tinha que ser”.

 Ele se apresentou pela primeira vez na Europa a  convite da cantora paraense Nazaré Pereira, que teve um grande sucesso na França com “O cheiro da Carolina” (Zé Gonzaga/Amorim Roxo), e até hoje mora em Paris. “Conheci Luiz Gonzaga em 1982, no Rio, e ele me convidou para almoçar na casa dele na Ilha do Governador, Ele ia comemorar 70 anos. Eu convidei para ele ir a Paris. Ele aceitou, e consegui uma apresentação de Luiz Gonzaga no Le Bobino, uma casa de show bem conceituada em Paris”. Quem conta isto é a própria Nazaré Pereira, por telefone, de Belém, onde foi visitar os parentes.

Luiz Gonzaga, acompanhado por dona Helena, chegou a Paris em maio de 1982, e segundo Nazaré desfrutou cada hora dos 15 dias que passou na cidade, hospedado no apartamento da cantora. Ela fotografou Gonzagão nos principais pontos turísticos parisienses, e lembra-se de passagens pitorescas, sobretudo do apego do Rei do Baião à comida brasileira: “Uma noite levei o casal para um restaurante francês bem chique, daqueles que servem aquele pouquinho de comida. Luiz Gonzaga me chamou de lado e disse que o queria mesmo era galinha assada, farofa e arroz. Eu era bem conhecida por lá, fui falar com o chef, e expliquei o problema. Ele disse que daria um jeito. Só não tinha a farofa, claro. Mandei buscar na minha casa, que eu sempre recebia farinha do Brasil. Uma hora e alguns minutos depois ele foi servido como queria”.
O show no Le Bobino, aconteceu em 7 de maio de 1982, com a casa cheia. Luiz Gonzaga cantou suas músicas mais Gonzaga cantou suas músicas mais famosas, acompanhado pela banda de Nazaré Pereira: “Fiz só uma participação, cantando com ele O cheiro da Carolina, que fazia sucesso na França”, diz Nazaré Pereira, acrescentando que mais difícil do que modificar o cardápio de um restaurante francês, foi driblar a vigilância de dona Helena, e escapar com Luiz Gonzaga até o telefone público mais seguro: “Ele ia ligar para a namorada Edelzuita Rabelo (madrinha do cantor Santanna),  a quem ele chamava carinhosamente de “meus amor”. A gente parecia dois adolescentes!, lembra a cantora.

Estas são algumas passagens da vida do Nordestino do Século XX, artista único que ousou levar para o sul do país, a cultura do seu Nordeste, rasgando uma estrada pela qual outros artistas destas bandas trilharam e ainda trilham. Já se passaram 23 anos, mas para nós que o admiramos, parece que ainda ecoa pelas caatingas do sertão, o seu vozeirão: “Já faz três noites que pro Norte relampeia / e a Asa Branca ouvindo o ronco do trovão...

Euriques Carneiro

 (referência: JC On Line)

2 comentários:

  1. Que matéria ótima e esclarecedora sobre o Mestre Lua. PARABÉNS pela qualidade do texto e das informações. Abraços.

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