quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Brasil e futebol explicados por Nelson Rodrigues


Comemoraçãodo centenário do autor, livro reúne textos inéditos do dramaturgo pernambucano, que construiu a sua lendária biografia no Rio de Janeiro, para onde se mudou ainda criança





A impressão que se tem é que o futebol brasileiro só existe para merecer as palavras grandiloquentes de Nelson Rodrigues. Maior escritor do esporte nacional, o dramaturgo pernambucano tem crônicas inéditas sobre o tema reunidas na coletânea Brasil em campo (Nova Fronteira, 160 páginas), organizada pela filha do autor, Sônia Rodrigues. O livro ganha lançamento quinta (23/8), data do centenário do autor, no Museu da República, no Rio de Janeiro, com leitura de Malu Mader. Na mesma ocasião, serão relançados alguns títulos do autor que estavam esgotados nas livrarias, como A vida como ela é, Vestido de noiva, A mulher sem pecado, Valsa nº 6, Doroteia e Anjo negro.

Nelson foi um dos primeiros a supor que o futebol é uma das chaves de compreensão para se entender o Brasil. O título da primeira crônica do livro resume sua posição: No Brasil, o futebol é que faz o papel da ficção. Para ele, os grandes arquétipos da literatura mundial – heróis, vilões – poderiam ser encontrados em clássicos ou peladas, e as principais viradas do País estão nos fatos futebolísticos, da derrota na Copa de 1950 até a redenção com Pelé e Garrincha, oito anos depois.
As crônicas têm o tom de Nelson, exagerado e preciso ao mesmo tempo, exatamente o que um assunto como o futebol pede. Interessante é que o dramaturgo, já em 1956, falava que o principal problema do Brasil não era a falta de talento, mas a aversão a si mesmo. Brincava (sempre com um fundo de seriedade) que o que faltava à seleção era apenas um psicanalista, muitas décadas antes disso virar uma moda no futebol.

O livro, assim, termina por ser uma síntese tanto do futebol como do Brasil. Na obra estão os personagens clássicos das suas crônicas, como Pelé, o “semidivino crioulo”, em quem está sintetizado o País, e Garrincha, seu ideal de Peri, o herói de O Guarani. Nelson é ainda mais preciso quando vai falar dos tipos gerais do Brasil, do torcedor sempre pessimista, do juiz impassível, ainda que diante de milhares de pessoas o xingando.
No fim, o futebol brasileiro é para Nelson uma certeza eterna, a única unanimidade possível. Ele mesmo se define quanto a isso. “Qualquer jogo é, para o crítico de futebol, ‘falho tecnicamente’. Já eu tenho o defeito inverso. (...) Nasci com vocação para admirar”, diz em um dos textos.

 Fonte: jconline

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