sexta-feira, 10 de agosto de 2012

10 de agosto: a Bahia celebra os 100 anos de Jorge Amado



O escritor baiano que, durante décadas foi a esperança brasileira de um prêmio Nobel, faria hoje, dia 10, 100 anos. Sua obra difundida nos quatro cantos do planeta foi, ao mesmo tempo, libertária e revolucionária, instigante e e pueril mas, acima de tudo, uma leitura que ainda influencia a literatura contemporânea.

Segundo a Fundação Casa de Jorge Amado, existem registros oficiais de traduções de obras do escritor para os seguintes idiomas: azerbaidjano, albanês, alemão, árabe, armênio, búlgaro, catalão, chinês, coreano, croata, dinamarquês, eslovaco, esloveno, espanhol, esperanto, estoniano, finlandês, francês, galego, georgiano, grego, guarani, hebraico, holandês, húngaro, iídiche, inglês, islandês, italiano, japonês, letão, lituano, macedônio, moldávio, mongol, norueguês, persa, polonês, romeno, russo, sérvio, sueco, tailandês, tcheco, turco, turcumênio, ucraniano e vietnamita (48 no total). Essas traduções foram publicadas no mínimo nos seguintes países: Albânia, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Armênia, Áustria, Azerbaidjão, Bulgária, Canadá, Chile, China, Colômbia, Coréia do Norte, Coréia do Sul, Cuba, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Eslováquia, Estônia, Finlândia, França, Geórgia, Grécia, Holanda, Hungria, Inglaterra, Irã, Islândia, Israel, Itália, Iugoslávia, Japão, Letônia, Lituânia, México, Mongólia, Noruega, Paraguai, Polônia, Portugal, República Tcheca, Romênia, Rússia, Suécia, Tailândia, Turquia, Ucrânia, Uruguai, Venezuela e Vietnã; o Brasil também deve ser computado em função da edição nacional em esperanto, totalizando 52 nações.
Como um filme americano influenciou os leitores russos
Se os livros de Jorge Amado abriram um 'novo mundo' para os leitores soviéticos, uma obscura adaptação de Capitães da Areia se encarregou de sedimentar de vez o encanto da Bahia no imaginário dos sofridos comunistas. O filme americano The Sandpit Generals (nome que traduzido ao pé da letra seria 'Generais do tanque de areia'), dirigido por Hal Bartlett e finalizado em 1971, trouxe - pela primeira vez aos russos- imagem, movimento, cores e som à uma história do autor baiano.
Inteiramente filmado em Salvador e arredores em 1969 e estrelado por atores americanos (talvez os mais conhecidos sejam John Rubinstein, ator de séries de TV e filho do pianista Arthur Rubinstein, e Butch Patrick, o "Eddie" da família Monstro) e brasileiros (entre eles Guilherme Lamounier, Eliana Pittman, Marisa Urban), o longa-metragem concorreu ao Festival Internacional de Cinema de Moscou em 1971.
O livro não tinha chegado ainda à URSS, portanto os leitores de Jorge Amado estavam conhecendo, também pela primeira vez, a história de bravura e solidariedade de Pedro Bala e sua turma de garotos abandonados da Salvador dos anos 30. Segundo a pesquisadora Elena Beliakova, da Universidade Estatal de Tcherepovets, quando chegou aos cinemas soviéticos, em 1973, o filme foi assistido por cerca de 43 milhões de pessoas e deixou profundas marcas em toda uma geração de russos.
Para a própria filóloga, que diz ter assistido ao filme "umas 200 vezas", trata-se do "maior filme de todos os tempos e de todos os países". E ela não está só. No site de cinema IMDB, outros russos tecem loas ao filme e recordam o seu impacto. É "o filme americano de maior sucesso na União Soviética nos anos 70 e 80", diz 'yonic', hoje morando em Israel. "Vi o filme duas vezes em meados dos anos 70 e ainda não consigo me conformar de quão fascinante, comovente e profundo ele foi. O final e o clima todo do filme me perseguem até hoje".
'Galina', hoje vivendo nos Estados Unidos, recorda quando esteve no cinema "vivendo, amando, torcendo, odiando, rezando, lutando, sofrendo, tentando sobreviver e morrer juntos com os 'capitães da areia'". Para ela, apesar de ter sido feito décadas antes, Sandpit Generals "é mais forte, comovente e pungente" do que Cidade de Deus. Hubtum' de Montreal, no Canadá, diz que o "doce e triste charme dessa obra-prima vem me assombrar desde minha infância".
No Brasil, ele foi proibido pelo regime militar - e, verdade seja dita, mesmo se tivesse sido liberado, fica difícil imaginar o filme tendo o mesmo sucesso que teve na Rússia, ainda mais vendo vários atores loiros e olhos azuis interpretando meninos de rua de Salvador. "O filme só foi exibido uma única vez, para a equipe técnica", contou à BBC Brasil o músico e produtor musical André Lamounier, irmão do cantor e compositor Guilherme Lamounier, o 'Gato' do filme. "Foi uma sessão privada no estúdio Condor, no Rio de Janeiro, para umas cinquenta pessoas, em 71 ou 72, por aí".
Frívolo e sexy
Sandpit Generals teve também o mérito de abrir o apetite dos russos para outras adaptações de obras de Jorge Amado pelo cinema. Dona Flor e seus Dois Maridos, de Bruno Barreto, teve um sucesso retumbante no país e foi um dos filmes mais "picantes" já exibidos nos cinemas soviéticos. O jornalista russo Alexander Kan, de 58 anos, lembra bem da chegada de Dona Flor...: "A censura com certeza impôs vários cortes", diz ele. Mesmo assim , o que ficou no filme era de uma sensualidade fora do comum. Causou um grande auê. Os russo nunca tinham visto algo de natureza tão frívola e sexy."
Finalizamos a nossa homenagem a um dos maiores gênios que a Bahia colocou no mundo, com uma das incontáveis frases cunhadas ao longo da sua extensa obra:

Avô, mesmo que a gente morra, é melhor morrer de repetição na  mão, brigando com o coronel, que morrer em cima da terra, debaixo de relho, sem reagir. Mesmo que seja pra morrer nós deve dividir essas terras, tomar elas para gente. Mesmo que seja um dia só que a gente tenha elas, paga a pena de morrer".
(Os Subterrâneos da Liberdade - Agonia da Noite)


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