terça-feira, 31 de julho de 2012

“Tá legal / eu aceito o argumento / mas não altere a música nordestina tanto assim...”



Os analistas culturais de plantão concordam em um ponto: o panorama atual da música regional nordestina encontra-se em uma inércia de descaracterização de sua origem cultural

A linguagem abordada nas letras já não é acessível a todos, o sentido das músicas já não tem o mesmo direcionamento, assim como seu público não é o mesmo. Neste novo paradigma a sobreposição instrumental em relação às letras faz com que, a sonoridade baste para identificar se a música é ou não regional. 
  As cantorias, mesmo as realizadas em ambientes tradicionais, as chamadas cantorias pé-de-parede, apresentam hoje modificações decorrente de sua adaptação ao rádio, ao disco, e às novas mídias, especialmente em relação ao conceito de tempo.
  A gravação da música folclórica, com arranjos da cultura de massa, apresentada por músicos consagrados tem uma influência de retorno sobre a produção popular. E como exemplo mais evidente é o relativo ao papel de Luiz Gonzaga. O baião, na forma divulgada pelo cantor, não era conhecida pela cultura folk, tendo a sua forma primitiva, o chamado baião-de-viola, ou simplesmente baiano, sendo substituída pelo ritmo arranjado por ele e seus produtores. Os instrumentos tradicionais desta música, como a viola, a rabeca e a banda de pífanos, cederam lugar aos conjuntos ditos “regionais”, que utilizam instrumentos como a sanfona, zabumba, bombo, caixa, triângulo e pandeiro. Mas é evidente que se referindo ao caso de Luiz Gonzaga, que foi um mito para a nossa música, se caracteriza como uma inovação e não descaracterização.
  Mas apresentação de grupos folclóricos, vista através da televisão, e mesmo ao vivo, tem refletido sobre os meios populares, levando a introdução de mudanças no vestuário, adereços e até na função e na forma de apresentação das manifestações folclóricas espontâneas. Como é o exemplo dos novos estilos de quadrilhas juninas, onde a ideia primordial do vestuário matuto hoje cede lugar a altas produções, onde os dançarinos usam chapéu de camurça, lindas botas, maquiagens e demais adereços que descaracterizam a regionalização da dança.
  Como também é o caso da nossa música típica mais conhecida, o forró, que hoje se encontra completamente descaracterizado, até em sua forma instrumental. Onde as guitarras, bateria, teclados e outros, tomaram o lugar da zabumba, sanfona e triângulo. Formando um novo estilo qualquer, que só não é o nosso verdadeiro forró pé-de-serra.
  Não vamos ficar olhando pelo retrovisor, achando que só as manifestações culturais do século passado é que tem valor, contudo as raízes regionais precisam ser sempre lembradas para só assim desenvolver uma forma onde possa expressar, mesmo que de forma evolutiva, os costumes de uma região. É preciso cuidar para que os resultados desta expressão possam servir para um entendimento maior dos que não vivem tais costumes, e possa ser instrumento de identificação e de conscientização para que reconheçam a riqueza e o valor de sua cultura. Precisamos estar abertos para o novo, experimentar sons e expressões culturais pouco ortodoxas, mas sem esquecer as raízes e a tradição cultuadas por gerações anteriores. Buscar esta interação entre o tradicional e o novo é o desafio cultural do século XXI.

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