sexta-feira, 13 de julho de 2012

Canal 100: cinejornal dos anos 70


O Canal 100, exibido nos cinemas antes do início dos filmes, era a chance de maioria das pessoas de ver os lances do futebol, ou tomar conhecimento de grandes eventos nacionais

Hoje temos internet até nos celulares, TV a cabo ou por assinatura já está acessível até para as camadas menos favorecidas da população, mas até os anos 1970 não havia satélite, nem TV colorida. Assim,  os jogos internacionais ou de outros estados brasileiros só chegavam pela narração acalorada dos speakers de rádio. As emoções eram renovadas, a cada semana, nas salas de cinema, quando a telona era ocupada pelos lances sensacionais de Pelé, Garrincha, Vavá e Didi. Eram tempos do Canal 100, famoso cinejornal criado pelo carioca Carlos Niemeyer, e que de 1957 a 1986 foi exibido semanalmente nos cinemas de todo o país, minutos antes de começar o filme. Dribles e gols fantásticos, tomados pela câmera no melhor estilo jornalístico, bem de pertinho e em closes sensíveis, eram ainda potencializados pela força da trilha sonora e pela grandiosidade das imagens, projetadas nas grandes telas de cinema daquela época.

A fórmula cinejornal e futebol encantava até os menos aficionados ao esporte. O cinema, ainda sem a concorrência dos DVDs e das TVs via satélite, era bem mais popular do que é hoje, e o cine documentário concorria de perto em audiência com o jornal impresso e a televisão. Mas os cinegrafistas do Canal 100 foram testemunhas não somente dos melhores momentos do futebol. Documentaram também fatos importantes da história brasileira, como a fundação de Brasília em 1960, a entrega da Palma de Ouro para o filme O Pagador de Promessas (1962), a inauguração da Ponte Rio Niterói (1974), ou a morte do presidente Juscelino Kubitschek (1976). O acervo reúne aproximadamente setenta mil minutos de imagens.


Garrincha: o rei da camisa foi mostrado inúmeras vezes pelo Canal 100 

No caso do futebol, o arquivo histórico do Canal 100 guarda verdadeiras preciosidades, como as imagens das primeiras atuações de Pelé e de Garrincha na Copa do Mundo de 1958 na Suécia; a eliminação do Brasil na Copa de 1966 e os jogos das Copas de 1982 e 1986. Muito do que se vê é trabalho de Francisco Torturra, grande cinegrafista de futebol da história dos cinejornais.

Apesar do sucesso, o Canal 100 não resistiu às investidas do mercado americano, apoiado pelo governo militar. E em 1985 deixou de ser produzido, quando a propaganda comercial em cinejornais foi proibida pelo ministério da Cultura do governo Figueiredo.
Com a morte do seu fundador, o Canal 100 foi gradualmente deixando fazer novas filmagens, restando um grande arquivo histórico. Em 2001, Alexandre Niemeyer, filho de Carlos Niemeyer, iniciou um projeto em que visava à recuperação e apresentação de todo o acervo cinematográfico feito pelo seu pai. Foi criada a "Revista Canal 100", que apresenta fotos do arquivo, e um site oficial do projeto onde é possível assistir a vários documentários, ler sobre a história da produtora e conhecer um pouco do ambiente brasileiro nos anos 1960. Imperdível para quem gosta de cinema, futebol, ou ambos.

Agora, uma parceria entre o Canal 100 e o Ministério da Cultura, vai permitir que todos os filmes sejam restaurados e voltem a ser exibidos nas telonas e telinhas até a Copa de 2014. Para os cinquentões, a chance de matar saudades daquele tempo e para os mais jovens, oportunidade de conhecer um trabalho que marcou época e encantou toda uma geração de brasileiros.
 

Ponte Rio-Niterói, no primeiro dia liberado ao tráfego


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