terça-feira, 10 de julho de 2012

Feira de Caruaru: patrimônio cultural brasileiro


A feira que leva o nome do caruaruense Onildo Almeida, grande compositor de forró

A Feira de Caruaru, maior feira livre do Nordeste, foi palco da obra de Mestre Vitalino, ceramista cujas peças estão em museus e em mãos de colecionadores ao redor do planeta


A Feira de Caruaru, atração maior da cidade pernambucana situada  a 120 quilômetros do Recife, já foi cantada em prosa e verso e uma das suas peculiaridades é a separação dos animais vivos. Em um canto ficam "os bichos de dois pés" (galinhas, perus, patos), em outro canto ficam "os bichos de quatro pés" (bodes, carneiros, bois, jumentos).

Há também montes e montes de cerâmica utilitária e bancas de cerâmica figureira.  Na feira de Caruaru, um dia, apareceu um menino de nome Vitalino,  cuja obra ingênua, no massapé (tipo de barro) pernambucano, tornou-se uma significativa mensagem de brasilidade, que tem alcançado os mais distantes centros culturais do mundo. As figuras de Vitalino são peças de museus e coleções particulares, de estudiosos do folclore e de todos que amam a arte popular no Brasil e no exterior.

Mestre Vitalino de Caruaru, nascido Vitalino Pereira dos Santos, consagrou-se com sua arte de fazer bonecos em Caruaru, onde nasceu, perto do rio Ipojuca, em 1909. Seu pai, humilde lavrador, preparava o forno para queimar peças de cerâmica, para melhorar o orçamento familiar. Sua mãe artesã, preparava o barro que ia buscar nas margens do rio Ipojuca. Depois, sem usar o torno, ia moldando peças de cerâmica utilitária, que vendia na feira. Levava o material nos caçuás (cestos grandes) colocados nas cangalhas do jegue (burrico).

 
Mestre Vitalino esculpindo sua arte no massapê

Ainda pequeno, Vitalino ia modelando boizinhos, jegues, bonecos, pratinhos com as sobras do barro que sua mãe lhe dava, para que não atrapalhasse e, ao mesmo tempo, se divertisse. Quando a mãe colocava as peças utilitárias para "queimar" no forno, ele colocava no meio as suas figurinhas, suas miniaturas que, se fossem feitos em Maragogipinho (BA), teriam o nome de “caxixis”.

Por volta de 1930, com 20 anos de idade, Vitalino fez os seus primeiros grupos humanos, com soldados e cangaceiros, representando o mundo em que vivia. Sua capacidade criadora se desenvolveu de tal maneira que acabou se tornando o maior ceramista popular do Brasil. Fazia peças de "novidade" - retirantes, casa da farinha, terno de zabumba, batizado, casamento, vaquejada, pastoril, padre, Lampião, Maria Bonita, representando seu povo, o seu trabalho, as suas tristezas, as suas alegrias. Retratava em suas peças o seu mundo rural.

Passados os anos, Mestre Vitalino, em 1947, já com 38 anos, continuava a viver da roça e de modelar bonecos. Estimulado pelo artista plástico e colecionador pernambucano Augusto Rodrigues, que admirava a excelência de seu trabalho, foi morar em Alto do Moura, localidade próxima de Caruaru, distante somente 8 km, com sua mulher e filhos.
Portal de entrada do Alto do Moura

Em Alto do Moura, Vitalino ficou perto da famosa Feira de Caruaru, que tinha centenas de barracas onde se comercializava de tudo. Na sua banca oferecia bonecos feitos com barro. Logo seus trabalhos ganharam fama tornando-o conhecido e admirado. Com singular destreza, esculpia cenas do cotidiano sertanejo em que vivia. Seus trabalhos eram diferentes dos levados pelos outros artesãos que abordavam sempre os mesmos temas: animais, maracatus, bumbas, cinzeiros, potes, jarros, pratos, moringas, etc.
 
O sucesso de Mestre Vitalino como “bonequeiro” repercutiu junto aos seus companheiros de Alto do Moura que passaram a admirar o seu talento. Isto fez com que muitos passassem a esculpir bonecos. 
Quando Luiz Gonzaga, grande admirador da obra de Mestre Vitalino, regravou a “Feira de Caruaru”, no disco “Volta prá Curtir”, ele abordou a questão das imitações que os demais artesãos faziam da arte de Vitalino. Na cena do imaginário de Gonzaga, uma cliente chega à banca do mestre e reclama de ter comprado bonecos em outro local como se fossem deles. E Vitalino responde com simplicidade: “...tem nada não minha irmã, é tudo amigo, é tudo irmão...”

A casa onde viveu o Mestre Vitalino até o ano de 1963, quando faleceu, está devidamente preservada no Alto do Moura e no bairro ainda vivem dezenas de artesãos que perpetuam a sua arte, como os filhos Severino e Amaro.
Casa onde viveu o Mestre Vitalino de Caruaru

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