terça-feira, 10 de julho de 2012

Em entrevista inédita, Drummond aborda o erotismo incrustado na sua poesia

Amigos e amigas do Artecultural: imaginem um longa entrevista de um dos mineiros mais econômicos nas palavras, o poeta Carlos Drummond de Andrade. E mais, na extensa conversa ele aborda e encara de frente o erotismo existente nas entrelinhas dos seus versos.
Em virtude da extensão do texto e até para saboreá-lo em pequenas doses, como se faz como um vinho de boa safra, publicaremos-a em três etapas. 
Acompanhem a primeira delas, com a redação original, conforme arquivada na divisão de manuscritos da Biblioteca Nacional.

Euriques Carneiro

O poeta Carlos Drummond de Andrade concedeu esta entrevista à pesquisadora Maria Lúcia do Pazo no dia 16 de junho de 1984. Na ocasião, Maria Lúcia estudava o erotismo na poesia de Drummond para uma tese de doutorado em Comunicação, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, defendida em 1992. 
O trabalho nunca foi publicado, mas a pesquisadora doou uma cópia para a Biblioteca Nacional. Esta entrevista, que é parte integrante da tese, permaneceu inédita desde então, arquivada na divisão de Manuscritos da biblioteca. Maria Lúcia tem hoje 80 anos e mora em Botafogo, zona sul do Rio. 

*
Carlos, em "Toada de amor", no verso "amor cachorro bandido trem" esse "trem" é linguajar mineiro para "coisa" ou é trem mesmo, com suas implicações de velocidade, possibilidade de descarrilar, bilhete de ida e volta, como no amor? 
"Trem", na linguagem mineira coloquial, significava muita coisa. Em primeiro lugar significava mesmo "coisa", indiscriminadamente. Depois significava uma forma depreciativa, e é mais ou menos nessa acepção que eu chamo o amor de cachorro, bandido e trem, como ofensa grave. Se eu não tivesse eliminado até as vírgulas, esse verso exigiria mais ênfase na leitura. Não quis dar essa entonação. Limitei-me a enumerar as palavras. Mas "trem" era tudo -- por exemplo, uma coisa que não era fácil de definir é um "trem", uma "coisa", um "troço" -- "trem" era, portanto, sinônimo de "troço", que veio depois. 
Como a interpretação da poesia é muito lata -- a poesia publicada já não pertence exclusivamente ao autor e sim a uma sociedade, a um condomínio entre o autor e o leitor ou leitores -- a interpretação pode ser dada no sentido mais extenso e sugerir, como sugeriu a você, a imagem do trem de ferro, que pode ir pelos trilhos calmamente e pode também descarrilar e produzir os maiores desastres. 
Nesse sentido, o amor pode ser considerado trem de ferro, como um itinerário, uma viagem muito atormentada. 


No mesmo poema, "Toada de Amor", os dois últimos versos: "Mariquita, dá cá o pito,/ No teu pito está o infinito". Constituem-se numa forma, digamos, coloquial do último verso do poema erótico inédito "Mimosa Boca Errante", que diz: "Já sei a eternidade: é puro orgasmo"? 
Cotejada com a palavra "eternidade", realmente apresenta certa similitude. No caso do poema "Mariquita dá cá o pito" -- me recordo muito bem disso -- é mera alusão a um conto de Monteiro Lobato em que ele narra a estória de um vigário do interior muito relaxado, que andava de chinelos, fumava cachimbo, em suma, tinha uma liberdade muito grande de viver na casa dele, quando chega o bispo para uma visita paroquial. Ele então arruma a casa e prepara-se para receber o visitante com toda a cerimônia. A certa altura, o bispo vira-se para ele e pede um cigarro ou um pedaço de fumo de rolo, uma coisa assim. Ele fica satisfeito, assim, e chama a comadre, que estava nos fundos da casa, e diz: dá cá o pito, quer dizer, aquela expressão que ele não se permitiria usar diante de uma autoridade eclesiástica, ficou sendo familiar porque a pessoa autorizava isso. 
A ideia que eu tive em mente foi isso, repetir - "Mariquita dá cá o pito" - e acrescentar, já agora como anotação minha sugerindo que o pito era da maior importância, era o infinito, quer dizer, o fumo, o prazer do fumo, do cigarro ou do cachimbo, cria uma espécie de sonho que pode ser considerado uma forma de infinito. 
Esse poema "Mimosa boca errante" faz parte da coleção de poemas eróticos intitulada "O Amor Natural". Você poderia dizer alguma coisa sobre a sua intenção de não publicá-los no momento e a permissão que me deu, tão gentilmente, para que pudessem ser abordados em minha tese de doutorado sobre o erotismo na poesia de Carlos Drummond de Andrade? 

Bem, a autorização e mesmo a sugestão que fiz de lhe mostrar esses poemas para serem aproveitados na sua tese, a meu ver, é uma coisa óbvia porque se o objeto da tese é exatamente o erotismo na minha poesia, não havia nada mais representativo do que esse volume inédito porque ele trata exclusivamente desse tema em suas muitas variações. Já na minha obra completa, publicada, o erotismo aparece aqui e ali de uma maneira mais ou menos intensa ou declarada mas não tem esse sentido assim de tema único que "O Amor Natural" possui. 
Não quis publicar até agora e exito ainda em publicar -- ou antes, resolvi não publicar -- pela circunstância de que o mundo foi invadido por uma onda de erotismo, logo depois convertida em pornografia, se é que a onda de pornografia não veio antes. 
O fato é que hoje não se distingue mais o erotismo propriamente dito e a pornografia, que é uma deturpação da noção pura de erotismo. Se eu publicasse agora o livro iria enfrentar, por assim dizer, um elenco bastante numeroso de livros em que a poesia chamada erótica não é mais do que poesia pornográfica e às vezes nem isso, porque é uma poesia mal feita, sem nenhuma noção poética. 
Não quis, no momento em que há maior abertura, publicar esse livro porque não queria ser confundido com outros que exploram esses temas de maneira que eu considero de mau gosto, inferior. 
Já me advertiram que a demora em publicar vai importar talvez num futuro próximo, em que meus poemas já não ofereçam nenhuma curiosidade porque o tema já estará tão batido, já se esgotou tanto essa série de assuntos e a educação sexual de uma forma errada ou certa se generalizou de tal modo -- na escola, no rádio, na televisão e na casa de família - que o meu livro de poemas correrá o risco de constituir-se em livro de classe para jardim de infância... 


Aguardem a segunda parte da entrevista , ainda nesta semana.
 

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